Nos últimos tempos, conhecemos mais de perto o trabalho de Jeff Harry, que há anos investiga algo que muitas organizações ainda subestimam: o papel do play na vida adulta e, especialmente, no mundo do trabalho.
Em seu TEDx Beyond hierarchy: how play can heal the division between us (tradução literal: Além da hierarquia: como o brincar pode curar a divisão entre nós), Harry relaciona o brincar à possibilidade de criar espaços em que hierarquia, status e posição deixam de organizar sozinhos a maneira como as pessoas se relacionam.
Para ele, a hierarquia não está apenas nos cargos ou no organograma. Ela também aparece na forma como nos percebemos, no quanto nos sentimos autorizados a falar, discordar, experimentar ou simplesmente ser nós mesmos.
É nesse ponto que o brincar entra na conversa. Uma experiência capaz de mudar, ainda que por alguns instantes, a qualidade da interação entre as pessoas.
Quando adultos brincam juntos, criam um tipo diferente de espaço social. Um espaço em que é possível experimentar, rir, errar, improvisar e colaborar sem a mesma carga de formalidade que costuma marcar o ambiente de trabalho.
E essa mudança na forma de estar juntos abre espaço para outras dimensões das relações.
Quando as pessoas jogam juntas, os papéis formais perdem espaço
No cotidiano das organizações, grande parte das interações é mediada por estruturas e documentos que organizam o trabalho.
Cargos, responsabilidades, processos, e-mails, reuniões, manuais e expectativas ajudam a definir como as pessoas trabalham juntas. E por vezes, também acabam definindo como elas se relacionam.
No jogo, essa lógica pode se flexibilizar.
Por alguns minutos, as pessoas deixam de ser apenas “o gestor”, “a analista” ou “o diretor” e passam a compartilhar uma experiência em que todos precisam observar, responder, experimentar e participar.
O título continua existindo. A hierarquia não desaparece. Mas ela deixa de ser a única coisa organizando aquela relação. É uma diferença pequena na aparência, mas importante na experiência.
Harry chama atenção para esse potencial do play: criar situações em que status, poder e posição perdem centralidade e dão lugar à conexão entre pessoas.
O jogo revela dimensões humanas que muitas vezes ficam escondidas
No brincar aparecem coisas que raramente surgem em reuniões ou apresentações. Humor. Criatividade. Vulnerabilidade. Espontaneidade. Curiosidade.
Também aparecem outras formas de participação. Quem fala pouco pode se revelar extremamente estratégico. Quem costuma ser mais sério pode trazer humor. Quem ocupa uma posição de liderança pode precisar pedir ajuda. Quem normalmente espera respostas pode experimentar caminhos sem saber exatamente onde vai chegar.
O jogo não cria essas características. Ele cria condições para que elas apareçam. Isso muda a maneira como as pessoas se percebem.
Às vezes, descobrimos no outro uma dimensão que não cabia no papel que ele ocupa dentro da empresa. Quando isso acontece, a relação ganha novas possibilidades.
O brincar permite que as pessoas sejam percebidas para além da função que exercem.
Play como espaço de reconexão
Em ambientes cada vez mais acelerados, pressionados por metas, excesso de informação e relações mediadas por tecnologia, os momentos de presença coletiva se tornam mais raros.
Estamos juntos com frequência. E isso não significa, necessariamente, que estamos em relação. Uma reunião pode colocar dez pessoas na mesma sala sem produzir encontro. Uma chamada de vídeo pode conectar dez câmeras sem produzir proximidade.
Experiências de jogo criam outro tipo de situação.
As pessoas precisam olhar umas para as outras. Tomar decisões. Reagir. Negociar. Esperar. Improvisar. Rir de um erro. Tentar novamente.
Existe presença e existe reciprocidade.
É por isso que pensar o play apenas como uma pausa para relaxar é reduzir demais seu potencial. Ele cria espaço para reaprender a interagir.
O brincar como linguagem
O brincar tem muito a ensinar sobre o trabalho porque coloca as relações em movimento. Relações são construídas por experiências compartilhadas.
É diferente conhecer alguém em uma apresentação e conhecê-lo enquanto vocês tentam resolver juntos um desafio. É diferente falar sobre colaboração e precisar colaborar de verdade. É diferente dizer que existe espaço para errar e experimentar uma situação em que errar faz parte do próprio jogo.
O brincar transforma conceitos em experiência e isso ganha força dentro das organizações.
Na Flow Lazer Corporativo, usamos o brincar como linguagem para criar experiências de conexão entre pessoas. Criamos situações em que outras formas de relação possam acontecer.
E, muitas vezes, é nesse espaço de leveza, curiosidade, presença e interação que surgem conversas, ideias e vínculos que não apareceriam em um ambiente estritamente formal.
O brincar abre caminhos para as pessoas se encontrarem dentro do trabalho.
Para se aprofundar:
Journal of Organizational Behavior – O poder do Play nas organizações, por Restubog, Kiazad, Aquino, Wang e Yeo.
Revista Internacional de Brincadeiras – Brincadeiras funcionais no local de trabalho: os tipos de brincadeiras que os funcionários praticam no trabalho, por Fletcher e Thornton.
Referências:
TEDxKarlsruhe – Beyond hierarchy: how play can heal the division between us, Jeff Harry.