Play, presença e Flow: o que a ciência revela sobre brincar no trabalho

Existe uma razão para a Flow se chamar Flow.
O conceito desenvolvido pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi descreve um estado de envolvimento profundo em uma atividade: a atenção se concentra, a percepção do tempo pode mudar e a própria experiência ganha valor.

Flow pode acontecer no esporte, na música, na criação, no trabalho. Csikszentmihalyi estudou experiências desse tipo em diferentes atividades humanas, mostrando que o estado não pertence a um único contexto.

Mas existe uma relação entre Play e Flow que vale olhar com mais cuidado.
Brincar cria um terreno particular: um espaço para experimentar, testar, criar, errar, tentar de outro jeito e inventar novos caminhos. E esse tipo de experiência pode ampliar o repertório com que lidamos com situações novas, desafios e mudanças.

O que é Flow?

Csikszentmihalyi começou a desenvolver o conceito de Flow a partir de pesquisas realizadas nos anos 1970. Ele observou pessoas profundamente envolvidas em atividades que pareciam valer por si mesmas e passou a investigar o que havia em comum nessas experiências.
A literatura consolidou algumas características recorrentes do Flow: equilíbrio entre desafio e habilidade percebidos, objetivos claros, feedback relativamente imediato, concentração intensa, sensação de controle e redução da autoconsciência, entre outras.

Esses elementos ajudam a entender por que jogos e atividades lúdicas podem favorecer experiências de Flow.
Um jogo estabelece regras, objetivos e possibilidades de ação. A pessoa experimenta, recebe respostas da própria atividade e ajusta seu comportamento. Quando o desafio está adequado ao repertório do jogador, a atividade pode se tornar profundamente envolvente.

Isso não significa que esses elementos produzam Flow automaticamente. Eles são condições que podem favorecer a experiência, mas o Flow continua sendo uma experiência subjetiva.

Play é maior do que Flow

Se olharmos apenas para a possibilidade de entrar em Flow, perdemos uma parte importante do que o Play oferece.
Brincar é experimentar.
É testar uma possibilidade sem saber exatamente onde ela vai levar. É criar uma regra, mudar uma estratégia, tentar de outro jeito. É correr pequenos riscos, errar e continuar. É descobrir o que acontece quando outras pessoas entram na mesma experiência.

Essa característica exploratória faz do Play um ambiente particularmente rico para a construção de repertório. A pessoa não está apenas executando uma tarefa. Está aprendendo a responder ao que acontece enquanto a experiência acontece. E esse repertório pode ultrapassar a situação original.

Uma pesquisa publicada em 2025 no Frontiers in Psychology investigou justamente essa dimensão da playfulness em situações de adversidade. Em uma amostra de 503 adultos, pessoas com níveis mais altos de playfulness apresentaram maior capacidade de adaptação e de encontrar maneiras de lidar com situações adversas. Os autores ressaltam que isso não significa ignorar riscos ou enxergar o mundo de maneira ingenuamente otimista; trata-se mais de uma capacidade de redirecionar a atenção e a ação diante das circunstâncias.

Playfulness não significa achar tudo divertido. Significa ter maior disposição para encontrar maneiras diferentes de se relacionar com uma situação.

O que isso tem a ver com o trabalho?

O trabalho também é um ambiente de experimentação.
Projetos mudam. Problemas aparecem. Estratégias falham. Pessoas precisam tomar decisões com informações incompletas. Uma solução que funcionou ontem pode deixar de funcionar amanhã.

Nesse cenário, repertório importa.
A capacidade de experimentar uma alternativa, tolerar um erro, confiar em alguém, ajustar uma estratégia e tentar novamente é útil quando o trabalho deixa de seguir o roteiro.

É por isso que a pesquisa sobre Play no ambiente organizacional vem ganhando espaço. Uma publicação do Journal of Management reuniu décadas de estudos sobre Play no trabalho e identificou associações com resultados como criatividade, aprendizagem, desempenho em tarefas e relações entre colegas. Os autores também destacam que o fenômeno precisa ser entendido dentro do contexto organizacional, e não como uma intervenção isolada que funciona da mesma maneira em qualquer empresa.

Outra pesquisa, publicada no Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior em 2026, amplia essa discussão. Proyer e Sendatzki tratam Playfulness como um campo emergente da pesquisa organizacional e destacam possíveis relações com criatividade, motivação, bem-estar e engajamento. Ao mesmo tempo, chamam atenção para fatores como tipo de trabalho, cultura e liderança.

O contexto importa.
Uma atividade lúdica isolada não transforma, por si só, a experiência de trabalho. A forma como a organização recebe o Play, o espaço que oferece para experimentação e a maneira como as pessoas se relacionam também fazem parte dessa experiência.

E onde entra o Flow?

O Flow entra como uma possibilidade.
Quando uma experiência envolve profundamente uma pessoa, concentra sua atenção, apresenta um desafio significativo e permite que ela perceba os efeitos de suas ações, o Flow pode acontecer.

É aqui que os dois conceitos se encontram sem se confundirem.
O Play oferece um ambiente de exploração. O Flow descreve uma experiência de envolvimento profundo.
Um não é sinônimo do outro. E brincar não precisa ter como objetivo produzir Flow.
O valor do Play está também no que acontece antes, durante e depois da própria brincadeira.

O papel da experiência

Isso ajuda a entender por que uma experiência lúdica no trabalho precisa ser bem desenhada. Uma boa experiência cria condições para que as pessoas participem de verdade.

Existe alguma coisa para descobrir.
Existe espaço para experimentar.
Existe interação com outras pessoas.
Existe possibilidade de escolha e resposta.
Existe alguma coisa que acontece como resultado das próprias ações.

A qualidade da experiência importa.

Play como experiência. Flow como possibilidade.

O Flow é uma das experiências humanas mais estudadas quando falamos de envolvimento profundo. O Play abre um território de experimentação, criação, risco e descoberta que acompanha a vida muito além da infância.

No trabalho, esse repertório ganha outro valor.

Pessoas precisam lidar com mudanças, problemas, decisões e situações que não estavam previstas. Ter diferentes maneiras de experimentar e responder ao que aparece pode fazer diferença.

É nesse espaço que o Play encontra o trabalho.
Experiências que permitem brincar também podem criar oportunidades para experimentar, construir junto e ampliar possibilidades de ação.

Play cria repertório. Repertório amplia possibilidades. E, nesse terreno, o Flow pode acontecer.


Para se aprofundar:
TEDx Talks
– Flow, the secret to happiness, Mihaly Csikszentmihalyi.
Revista Anual de Psicologia Organizacional e Comportamento Organizacional
Analisando o jogo e a ludicidade no trabalho: conhecimento atual, aplicações práticas e futuras direções de pesquisa, Proyer e Sendatzki.
frontiersin.orgComo a ludicidade (re)enquadra o mundo? Evidências de redirecionamento cognitivo e comportamental seletivo em momentos de adversidade, Shen e Crawley.

Referências
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Flow: A psicologia do alto desempenho e da felicidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2020.
FREIRE, Lucas. O Acidente de Mihaly: o Manifesto da Ciência do Play na Psicologia Positiva. Salvador-BA. Playfulness, 2026.