O Play entre a confiança e a segurança

Quando o tema é construção de confiança, ainda soa estranho, em alguns ambientes, colocar o lazer na mesma conversa. Mas essa conexão fica cada vez mais evidente ao longo desses mais de 20 anos estudando, construindo e trabalhando com lazer nas empresas.

O ponto de partida desta reflexão foi um artigo escrito por Leandro Savoy, na VocêRH sobre o papel da confiança na gestão de equipes. Ao lê-lo, algumas referências que acompanho há anos começaram a conversar entre si.

Confiança se constrói nas pequenas experiências

O artigo traz a professora da Harvard BS, Amy Edmondson, uma das principais referências no estudo da segurança psicológica, para mostrar algo importante: equipes com mais segurança psicológica reportam mais erros.
E isso não significa que essas equipes erram mais. Significa que as pessoas se sentem mais à vontade para falar sobre o que deu errado, fazer perguntas, admitir dúvidas e trazer situações que poderiam permanecer escondidas.

Assim, confiança e segurança psicológica se encontram.

O artigo também recorre a Esther Perel, psicoterapeuta e pesquisadora das relações humanas, para fazer um paralelo entre relações amorosas e relações no trabalho. A ideia é simples, mas poderosa: confiança não nasce de um grande momento. Ela vai sendo construída em pequenas experiências que se repetem ao longo do tempo.

E é onde enxergo o Play.

A confiança também entra no jogo 

Brincar envolve exposição.
Você tenta. Pode errar. Pode rir de si mesmo. Precisa perceber o outro. Experimentar. Ajustar. Tentar novamente.

Jaak Panksepp, um dos pioneiros da neurociência afetiva, identificou o PLAY como um dos sistemas emocionais básicos dos mamíferos. Seu trabalho ajudou a mostrar que brincar não é apenas uma atividade recreativa, mas parte importante do repertório de interação e desenvolvimento dos animais.

Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, dedicou parte de seu trabalho a compreender as relações entre segurança, estados fisiológicos e comportamento social, incluindo o papel do Play nessa dinâmica.

Essas referências ajudam a olhar para o brincar para além da atividade em si. Existe ali uma experiência de interação, de descoberta e de relação com o outro.

E é justamente essa experiência que me interessa quando penso no Play dentro das equipes.

Quando o Play passa a fazer parte da rotina

E aí a repetição ganha importância.

Uma experiência isolada pode ser divertida, marcante ou até aproximar. Mas quando diferentes experiências de Play passam a fazer parte da rotina de uma equipe, criam um repertório compartilhado e referências que só aquela equipe possui: histórias, códigos, lembranças, situações que podem ser retomadas e que passam a fazer parte da convivência.

A confiança também se alimenta disso: de vivências que se acumulam, de pessoas que aprendem a se reconhecer em diferentes situações e de uma convivência que ganha novas referências.

O jogo termina. A experiência vivida, não.


Para se aprofundar:
Harvard Business Review
O que as pessoas entendem errado sobre segurança psicológica, por Amy Edmondson & Michaela Kerrissey.
stephenporges.comTeoria Polivagal.

Referência:
VOCÊ RH – O papel da confiança na gestão de equipes, por Leandro Savoy.