Tendências 2026: por que presença e experiências reais ganham força

As tendências para 2026 apontam para um movimento claro nas organizações: experiências presenciais, encontros reais e contextos que favoreçam atenção e presença estão ganhando relevância.

Esse movimento não surge como rejeição ao digital, que segue sendo fundamental, mas como uma necessidade de harmonia (o equilíbrio é mais estático, não serve pra esse caso específico). Depois de anos de aceleração, hiperconectividade e sobreposição de estímulos, começa a ficar evidente que produtividade, engajamento e bem-estar não se sustentam apenas com mais ferramentas, mais métricas ou mais velocidade.

O que está em jogo é o contexto.


Do excesso de estímulos à busca por presença

O trabalho contemporâneo se tornou fragmentado. Notificações constantes, reuniões em sequência, múltiplos canais de comunicação e demandas simultâneas disputam a atenção o tempo todo. O resultado não é apenas o cansaço, mas uma erosão silenciosa da capacidade de foco, profundidade e sentido.

Por isso, quanto mais virtual o mundo se torna, mais cresce a busca pelo real.

Relatórios de tendências e análises de futuristas como Amy Webb e estudos da WGSN vêm apontando esse mesmo movimento: pessoas e organizações passam a valorizar encontros presenciais, experiências intencionais e momentos que favoreçam conexão genuína. Não como nostalgia, mas como resposta adaptativa ao excesso.

Essa é uma típica contra-tendência, como define o pesquisador Rohit Bhargava: quando algo chega ao limite, o movimento seguinte tende a ser o oposto. O excesso de estímulos gera a necessidade de pausa. A hiperconexão desperta o desejo por presença.

Essa leitura dialoga diretamente com o que o filósofo Gilles Lipovetsky descreve como hipermodernidade: um tempo marcado pela aceleração contínua, pela intensificação das experiências e pela multiplicação de estímulos. Nesse cenário, o paradoxo se torna evidente: quanto mais tudo se acelera, mais cresce a sensação de dispersão, cansaço e vazio de sentido. A busca por presença, atenção e experiências mais densas surge, assim, como resposta cultural a esse excesso.


Flow não é individual. É contextual.

Muito antes de o termo “flow” virar pauta em ambientes corporativos, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi já explicava que esse estado acontece quando a atenção não está fragmentada e a experiência faz sentido para quem a vive.

Flow não é força de vontade. Não é performance individual. Não é sobre “dar conta de tudo”.

Ele emerge quando o contexto permite: quando há clareza, propósito, desafio adequado e espaço mental suficiente para estar inteiro na experiência. Em ambientes ruidosos, interrompidos e excessivamente reativos, entrar em flow se torna exceção, não regra.

Nesse cenário, começa a ficar mais claro que flow deixa de ser algo apenas individual e passa a ser uma variável de contexto organizacional.


A atenção como ativo estratégico

Como alerta Cal Newport, o problema raramente é o trabalho em si. O que compromete a qualidade do trabalho é a fragmentação constante da atenção. Quando tudo disputa foco, nada se aprofunda.

Não por acaso, estar offline começa a virar luxo. Estar presente, diferencial.

Organizações que entendem esse movimento deixam de perguntar “como engajar mais?” e passam a questionar algo mais estrutural: que tipo de ambiente estamos criando para que as pessoas possam se engajar de verdade?

Ambientes com menos ruído, mais intenção e experiências bem desenhadas tendem a fortalecer:

  • a qualidade das relações;
  • o vínculo com o trabalho e com a organização;
  • a sensação de pertencimento;
  • e, como consequência, o engajamento sustentável.


Experiência não é entretenimento

É importante fazer uma distinção fundamental: criar experiências não significa oferecer distrações vazias ou pausas desconectadas do cotidiano de trabalho.

Experiência, nesse contexto, é desenho intencional de espaços, tempos e interações que permitam presença, encontro e sentido. É criar condições para que as pessoas estejam inteiras e não apenas disponíveis.

Quando o contexto melhora, o trabalho ganha outra qualidade. A colaboração se aprofunda. As conversas mudam de nível. O engajamento deixa de ser algo a ser cobrado e passa a ser algo que acontece.


Talvez o avanço não seja fazer mais

As tendências para 2026 não apontam necessariamente para mais inovação tecnológica, mais processos ou mais indicadores. Apontam para algo mais sutil e mais difícil: criar condições melhores.

Condições para respirar.
Condições para se encontrar.
Condições para fazer sentido.

Talvez o futuro do trabalho não esteja em fazer mais coisas, mas em desenhar contextos onde seja possível estar presente, criar vínculo e produzir com qualidade.

A pergunta que fica é menos sobre desempenho e mais sobre experiência: que tipo de experiência estamos criando no dia a dia das pessoas?


Para se aprofundar:
SXSW 2024: futurista Amy Webb lançará relatório de tendências em tecnologia
Trabalho Profundo: Regras para o Sucesso com Foco em um Mundo Distraído
A internet é uma fonte excessiva de distração?

Referências
LIPOVETSKI, Gilles. A sociedade da decepção. São Paulo; Manole, 2007.
ARONSON, Elliot. O animal social. São Paulo; Goya, 2023.