O que o podcast WorkLife, de Adam Grant, revela sobre solidão e o que as empresas ainda insistem em não enxergar
Durante muito tempo, a solidão no trabalho me pareceu um tema tratado como algo subjetivo demais, quase íntimo demais para entrar nas conversas estratégicas das organizações. Algo ligado à personalidade, à adaptação individual ou à tal “resiliência emocional”.
O episódio We Don’t Have to Fight Loneliness Alone, do podcast WorkLife with Adam Grant, ajuda a deslocar esse olhar. A solidão deixa de ser um sentimento difuso e passa a ser apresentada como um fenômeno social e organizacional, com impactos mensuráveis na saúde, no comportamento e no desempenho profissional.
Este texto não pretende esgotar o debate. É, antes, um registro de percepções. Um ponto de partida para a conversa.
Solidão como estresse crônico e não como fragilidade pessoal
Logo no início do episódio, Adam Grant recupera um alerta recorrente de Vivek Murthy, que trata a solidão como um problema de saúde pública: o impacto da solidão prolongada na expectativa de vida é comparável ao de fumar cerca de 15 cigarros por dia.
A comparação não é retórica. A solidão ativa no corpo um estado contínuo de estresse, elevando níveis de inflamação e aumentando o risco de adoecimento ao longo do tempo. Não estamos falando apenas de bem-estar emocional, mas de saúde física.
Esse ponto desmonta, para mim, uma ideia ainda muito presente nas empresas: a de que solidão é um problema individual. O episódio mostra que ambientes de trabalho podem produzir solidão mesmo quando estão cheios de gente, reuniões e mensagens.
Em outras palavras: estar cercado não é o mesmo que estar conectado.
A espiral invisível do isolamento
O episódio avança para um ponto sensível para as organizações, e que, pessoalmente, vejo aparecer com frequência na prática: solidão não afeta apenas quem sente, ela afeta resultados.
Pesquisas citadas por Adam Grant mostram que colaboradores que relatavam sentir-se sozinhos no trabalho receberam avaliações de desempenho mais baixas apenas seis semanas depois. O mecanismo é sutil e cumulativo:
- pessoas solitárias tendem a se engajar menos;
- tornam-se menos acessíveis;
- pedem menos ajuda;
- recebem menos apoio.
Forma-se uma espiral de isolamento difícil de perceber de fora e ainda mais difícil de nomear no dia a dia das empresas. O desempenho cai, mas a causa raramente é nomeada.
Não por acaso, vivemos um paradoxo curioso: nunca tivemos tantos meios de comunicação e, ao mesmo tempo, cada vez menos amigos próximos e menos conexões de qualidade. A tecnologia amplia o contato, mas nem sempre sustenta o vínculo.
Por que happy hours quase nunca funcionam
Um dos relatos que mais me chamou atenção no episódio vem de Vivek Murthy, médico e ex–Cirurgião-Geral dos Estados Unidos, que viveu a solidão dentro do próprio ambiente de liderança.
Sua primeira resposta foi a mais comum nas organizações: promover piqueniques, happy hours e eventos sociais. O efeito foi previsível:
- as conversas continuavam girando em torno do trabalho;
- as pessoas permaneciam nos mesmos grupos;
- poucas conexões novas surgiam;
- a profundidade dos vínculos não aumentava.
Eventos genéricos tendem a reforçar laços já existentes. Raramente constroem pontes novas. Às vezes, funcionam mais como vitrine social do que como espaço de encontro real.
A virada: pequenas experiências dentro do dia
A virada acontece quando a lógica se altera (e aqui confesso que fiz várias associações com experiências que já observei e facilitei). Em vez de eventos pontuais, Vivek Murthy passa a criar microexperiências durante o expediente. Algo simples: descer com pequenos grupos para jogar basquete por 15 ou 20 minutos, em pausas curtas.
Sem discurso, sem objetivo corporativo explícito, sem performance. O que ele observa depois dessas experiências:
- as conversas mudam;
- as pessoas se mostram mais abertas;
- a sensação de isolamento diminui;
- a conexão surge de forma espontânea.
Não era sobre o basquete. Era sobre a experiência compartilhada.
Há estudos citados no episódio que mostram que interações positivas de poucos segundos, às vezes menos de 40 segundos, já são capazes de alterar a percepção de pertencimento entre pessoas. Pequenos encontros, quando recorrentes, têm um efeito acumulativo poderoso.
Conexão não nasce de intenção, mas de contexto
O episódio reforça algo que, na prática, tenho visto se confirmar repetidamente: conexão não pode ser ordenada, comunicada ou cobrada. Ela emerge de contextos bem desenhados. Interações significativas tendem a surgir quando:
- os grupos são pequenos;
- a experiência é concreta;
- o tempo é curto, mas recorrente;
- não há hierarquia explícita;
- o foco não está no trabalho.
Essas interações formam o que a literatura chama de high-quality connections: encontros breves que geram energia, confiança e sensação de pertencimento. É nesse espaço que surgem microcomunidades, muitas vezes informais, às vezes tão simples quanto um banco no corredor, uma mesa compartilhada ou uma pausa vivida em conjunto.
O que isso ensina sobre lazer corporativo
Olhando para o episódio a partir da prática, e do que tenho visto acontecer nas organizações, a conclusão me parece direta: lazer corporativo não é entretenimento nem benefício periférico. Ele funciona como infraestrutura relacional. Experiências simples, intencionais e recorrentes:
- reduzem o isolamento;
- quebram a espiral de estresse crônico;
- fortalecem laços;
- aumentam abertura;
- criam condições reais para colaboração.
Mais do que grandes ações, são os pequenos momentos vividos juntos, dentro do dia de trabalho, que ajudam a recompor o tecido social das organizações.
Talvez a pergunta errada seja “qual atividade fazer?”
O episódio termina deixando uma provocação importante para líderes e áreas de pessoas:
Talvez o desafio não seja criar mais ações.
Mas redesenhar os espaços, os tempos e as permissões onde o encontro pode acontecer. Porque, como o próprio episódio mostra,
solidão não se combate com agenda cheia,
mas com experiências que fazem sentido.
Para se aprofundar:
WorkLife with Adam Grant
Entendimento do impacto e das high-quality connections — artigo com insights sobre como conexões de qualidade combatem a solidão no trabalho
Referência
We Don’t Have to Fight Loneliness Alone – WorkLife with Adam Grant