O psiquiatra e pesquisador Stuart Brown, fundador do National Institute for Play, dedicou décadas a estudar o papel do play no desenvolvimento humano. Segundo ele, o play não é um luxo, nem um passatempo. É um estado biológico essencial para o cérebro, ligado à criatividade, à flexibilidade cognitiva e à capacidade de adaptação.
Em seus estudos, ambientes que estimulam o play tendem a apresentar:
- mais criatividade
- maior capacidade de resolver problemas
- relações sociais mais fortes
Em outras palavras, o play cria condições cognitivas e sociais que favorecem a inovação.
Play e criatividade no trabalho
A pesquisadora Teresa Amabile, da Harvard Business School, chega a conclusões semelhantes. Seus estudos mostram que ambientes que incentivam experimentação, curiosidade e interações informais tendem a gerar mais ideias inovadoras.
Ela chama isso de “clima psicológico para criatividade”.
E esse clima dificilmente nasce apenas de processos formais. Ele emerge, principalmente, nas interações entre pessoas.
A importância das interações informais
O professor Jeffrey Pfeffer, da Stanford Graduate School of Business, reforça esse ponto. Segundo ele, as relações sociais dentro das organizações têm impacto direto no engajamento, no desempenho e até na saúde mental.
Momentos informais, muitas vezes tratados como secundários, cumprem um papel essencial: constroem confiança. E sem confiança:
- ideias não circulam
- perguntas deixam de ser feitas
- erros deixam de ser discutidos
O paradoxo das organizações modernas
Hoje, muitas empresas enfrentam desafios que exigem exatamente as capacidades humanas que o play estimula:
- criatividade
- colaboração entre áreas
- resolução coletiva de problemas
- adaptação a cenários incertos
Mas, ao mesmo tempo, esses mesmos ambientes continuam sendo estruturados de forma rígida e excessivamente formal. Aí surge o paradoxo: as organizações precisam de mais humanidade… mas operam em estruturas que a limitam.
Play não é falta de seriedade
Trazer play para o trabalho não significa transformar tudo em brincadeira. Significa criar espaços onde as pessoas possam:
- interagir com mais abertura
- experimentar ideias
- construir entendimento coletivo
Espaços onde curiosidade e exploração não sejam vistas como perda de tempo, mas como parte do processo. Porque, no fim, empresas não são apenas sistemas de processos. Elas são sistemas de relações humanas.
Talvez a pergunta seja outra
Ao longo da vida adulta, muitos de nós fomos deixando o play para trás. Mas talvez a pergunta não seja se o play tem espaço no trabalho. Talvez seja outra:
“Quando foi que paramos de brincar e o que perdemos quando isso aconteceu?”
Para se aprofundar:
TED Talk/Stuart Brown – Play is more than just fun
Harvard Business Review – Como matar a criatividade.
Harvard Business Review – Criatividade e o papel do líder.
ReCaPe – O ser criativo e o ambiente organizacional: uma reflexão acerca dos elementos que proporcionam um ambiente favorável à criatividade.
FSRJ – Práticas de Recursos Humanos que Influenciam a Criatividade dos Funcionários.
Revista Desenvolvimento Social/RDS – Estímulos e barreiras à criatividade no ambiente de trabalho.
Referências:
FREIRE, Lucas. Playfulness: trilhas para uma vida resiliente e criativa. São Paulo. DVS Editora, 2021.
BROWN, S. M.; VAUGHAN, C. Play: How It Shapes the Brain, Opens the Imagination, and Invigorates the Soul. New York: Avery, 2009.